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Entre tugas, um bilhostre

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           Em Bruxelas, a cozinha lusa de que mais gosto é a do café Portugal. O estabelecimento não cabe em descrições, mas aqui deixo curto registo. Na sala principal, quatro televisores são os pontos cardeais. Eles garantem que todos veem a bola e que nenhum lance fica por escrutinar. Os ornatos glorificam o Benfica e a seleção portuguesa de futebol. No teto, uma grande fotografia do Estádio da Luz em dia de enchente é acolitada por imagens de ensejos diversos e por fotos com dizeres de apoio à equipa nacional ou alusivos à grandeza do Benfica. A nota mais telúrica procede do entalhe em madeira, suspenso na parede, que ostenta o brasão da vila de Satão, terra do proprietário. A pátria ecoa também nas distintas vidas que o sufixo «inho» aqui alardeia: já ouvi propostas de «robalinho grelhado», de «robalozinho grelhado» e de «robalo grelhadinho». O teto falso da zona de serviço é fiel ao vezo lusitano de mirar os além‑mares, nele vemos imitações — algumas a roçar a paródia — de chapas de matrículas de carros de vários estados norte‑americanos.

           A. chegou ao café acompanhada da prole, mas sem o homem roliço que sói ter à sua ilharga. É uma mulher linda, mamalhuda, loira como espiga de trigo, expedita. Eu cavaqueara com ela em tempos pretéritos, aplaudira os seus sucessos. Porém, desta feita olhou‑me de través, não me cumprimentou e sentou-se à mesa, de costas para mim. Valho pouco na bolsa de valores da importância e, mercê da idade da razão, relativizo ações e omissões, não me gasto a decifrar condutas. Ainda assim, já achacado por manhã desagradável, senti desalento. Prolonguei o prato principal, o pudim, o café e a leitura, talvez me acenasse ao sair. Não o fez. Acresce que se mostrou afável para com os outros circunstantes, eu fui o único despojo da sua descortesia (e isso penalizou‑me mais do que os votos de «boa continuação» que alguém me dirigiu).

            Em face dos contratempos, algumas mulheres comem chocolates. Eu deixei o palco da desconsideração e segui rumo ao Lidl, onde me abasteci de iogurte grego com sabor a morango. Trouxe também gel de duche e champô da marca Cien, modelo Seduction.

            Duas semanas depois, um homem cuja moradia visitara em diversas ocasiões estava no café Portugal com o seu novo amor. Olhei para ele várias vezes a fim de o saudar, desprezou os meus propósitos. Na mesma falta incorreu um par de aventesmas, secas de jaez, com quem eu anteriormente dera à língua em festas e folguedos. Ali, de novo ao sábado, pessoas que conheço ignoraram-me e o aguilhão do despeito picou‑me.

             Hoje, no Terramar, casa com cardápio idóneo para saciar numerosos apetites e caprichos, uma colega de outrora, muito bonita, e o antigo proprietário do restaurante Madredeus — indivíduo gentil, que sempre carregava fácies dorida — fingiram não dar por mim. No referente à ex‑companheira de trabalho, a impossibilidade de demorar o olhar nos seus belos lábios pintados de batom puníceo foi circunstância agravante da ofensa. O garção de barba falha que me serviu era solícito, o bacalhau e o vinho tinto confortaram‑me. Não apagaram, todavia, a impressão de que a minha felicidade não rima com visitas sabatinas a estabelecimentos de comes e bebes portugueses em Bruxelas. Entre tugas, elas têm feito de mim um bilhostre.

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

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