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quinta-feira, 04 março 2021

CRÓNICA DO HOMEM A DIAS - à lareira



Joaquim e H.D. faziam parte da mesma geração. Cresceram juntos. E crescer é partilhar. Descobriram o mundo ao mesmo tempo. Quando H. D. chegou à aldeia com a mãe, vindos do Porto, como se sabe, o primo Joaquim, que sempre vivera na aldeia, ajudou-o a desvendar os mistérios da Natureza.

Por que é que as galinhas e as outras aves não têm sexo como os burros, por exemplo? Joaquim não sabia responder, mas o facto de lhe ter chamado a atenção para isso foi importante. Nele nasceu o espanto. E um ser que se espanta é um ser que está a caminho. Não se sabe para onde, mas saber que o caminho não tem fim é o início do movimento do ser que se desenrola para um Ser maior. É como um segundo nascimento.

E a vida tem muitos nascimentos. O primeiro é o do feto, que se desenrola e força a entrada no mundo. Sobre isto, dizia Joaquim ao primo, as aves e os mamíferos são diferentes. No caso dos mamíferos a cria nasce já completa. Mas as galinhas põem ovos que chocam com o seu calor. As crias vão-se desenvolvendo e chegado um dia picam o intramundo sem saberem o que vão encontrar do lado de fora. Ou será que sabem? Estou convencido que do lado de fora a mãe chamou os pintainhos e os incentivou a debicarem a casca protectora e a apresentarem-se de corpo. A alma irão encontrá-la depois. 

Um ser a caminho é um ser em busca da sua alma - sempre a fugir-lhe em frente.

Nascemos com as nossas primeiras experiências. Todos nos lembramos da primeira vez. Por isso nascemos muitas vezes. E nascer é espantar-se. Espantamo-nos todos os dias – só por estarmos vivos, só por termos esta forma e não outra. Seriamos os mesmos se tivéssemos nascido noutro lugar? E em outro século?

O almoço foi reconfortante para os três convivas. H. D. não tem filhos. Nunca desejou tê-los. Mas Joaquim tem dois, que estavam com a mãe. Ter filhos nos tempos actuais não é fácil, lamentou-se Joaquim.

- Já na minha vida adulta era difícil, sentenciou Joana. Foi essa a razão que me decidiu a não ter mais. Ainda por cima havia a Guerra do Ultramar.

Em casa dos médicos onde serviu durante doze anos, Joana tinha aprendido a pensar em política, que é uma palavra grega e significa “coisa pública”. Também foi um espanto para Joana que alguém tivesse uma opinião diferente do pároco de quem ouvia missa. Depois ouviu falar de um bispo que abordava o problema da Guerra Colonial de forma muito diferente.

- Na casa dos doutores li um livro muito interessante. Ainda o tenho comigo. É um livro de contos. Eu gosto de contos porque não tenho paciência para grandes narrações. Esse livro tem por título “Contos Exemplares”, e é de Sophia de Mello Breyner Andresen. Volto muitas vezes a esse livro. Nele há um conto chamado “O Jantar do Bispo”, se a memória não me engana. Mas sabem, e é uma anciã que vos fala, uma pessoa que está prestes a chegar ao final desta viagem e a iniciar outra, sabem, o que tenho aprendido é que quem menos sabe é quem mais fala, e quem mais sabe mais se cala. E a tragédia do mundo é esta  – os velhos sabem mas não podem e os jovens podem mas não sabem. Há dias passei pela casa da Delfina, ela estava à porta a apanhar sol. Perguntei-lhe a idade, e ela respondeu-me: tenho cento e quatro anos, filha. Acho que Deus se esqueceu de mim. Como vêem, o espanto de Deus pode ser infinito.

Luso.eu - Jornal das comunidades
Manuel Silva-Terra
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