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Em Vílnius, a recordação dos coscuvilheiros

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            Os bisbilhoteiros causam‑me particular repulsa. Na medida do possível, evito esses diabos estabelecidos no comentário, quase sempre malicioso, sobre os sucessos e os haveres de outrem.

            Há pouco tempo, a caminho de uma ação de formação, cri ouvir uma inexcedível má‑língua. Arrepiou‑me a hipótese de ela comparecer ao conjunto de sessões em que estava inscrito, de ter de passar todo o dia na mesma sala que a sua taramela viperina. Senti alívio quando, ao entrar no edifício, a porta giratória espelhada refletiu a imagem de duas mulheres que nunca vira: afinal, não era a gossiper quem por ali andava.

            Cismo nas pessoas que poderia admirar, mas cuja alma é propensa à mexeriquice e à calúnia. Metediços que acidificam o discurso com achegas de índole ruim e que, no meu catálogo, fazem parte do grupo das criaturas que aprecio a três quartos: engloba gente digna de respeito, mas da qual, por motivo de peso — correlato ao quarto em falta —, acabo por não gostar.

            Vem isto a propósito da visita que fiz ao museu aberto no antigo edifício‑sede do KGB em Vílnius. O público tem acesso à cave, outrora local de encarceramento e de execução dos decretos de morte, e a dois andares com salas de exposição. A mostra é rica e denuncia o arranjo do mal ao serviço de um regime opressivo e totalitário. Notei os travos da intolerância, da purga e da represália. Mas também a esperança, a fé e a fortaleza: tocou‑me o modo como, nos lugares de desterro, os lituanos mantiveram tradições e cerimónias religiosas. Conservo na memória a cela insonorizada, com forro nas paredes, em que se exibe uma camisa de forças cujo uso era imposto aos detidos revoltos, e aqueloutra onde se deitava água muito fria no solo; para a evitar, o preso tinha de permanecer em equilíbrio num pequeno pedestal. Murro no estômago, levei‑o ao ver os pertences dos que foram executados, sobretudo os sapatos. Parece que ainda hoje a morte os calça.

            Pelo quilate dos sentimentos que os coscuvilheiros me inspiram, dei por mim, enquanto observava os aprestos do KGB para as escutas, a pensar que essa lida condiz com os devoradores da vida alheia. Em vista a castigá‑los, só no âmbito da polícia e dos serviços secretos lhes deveria ser dada a chance de aceder a um posto de trabalho (embora seja contrário à lei constitucional, aqui fica o wishful thinking).

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

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