Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

Um restaurante pode ser a sala das nossas vidas

Convide os seus amigos

Votos do utilizador: 5 / 5

Estrela ativaEstrela ativaEstrela ativaEstrela ativaEstrela ativa
 


O dia estava cinzento e pesado contrastando com a leveza e a luz com que agosto invadiu ilha. A brisa, que me tocava ao de leve, sussurrava-me ao ouvido que o verão estava a despedir-se e o outono, timidamente, a entrar em cena, em bicos dos pés.

No alto da minha varanda, enquanto espero que S.Sebastião me salve desta lassidão, lembro-me que nunca me agradou o mês de setembro. É morno. Não tem tempero. 

Ainda se sente o verão e as férias, mas ainda assim o tempo arrefeceu. Quase que parece um mês que sofre com falta de personalidade. Mas na verdade setembro obriga a recomeços. Sinto logo que estou a entrar noutro ciclo, numa espécie de advento interior. Projeto-me, em silêncio, para um ano que já vai adiantado e que daqui a nada termina.

Quando me deparei com estes pensamentos, decorrentes do meu tédio existencial, lembrei-me da pergunta que a Inês Meneses da Silva faz aos seus convidados no programa de rádio ‘Fala com Ela’ – que tanto me tem acompanhado – sobre o que é para eles um dia bom.

O meu coração, de repente, transborda e eu percebo que estás na ponta da língua sobre o que é ter um dia bom. É simplesmente escolhermos entre um dos nossos três ou quatro restaurantes preferidos, que estão escritos com tinta transparente na nossa íntima listinha que tresanda a rotina de apaixonados. 

Um dia bom é ficarmos tardes a comer, a beber e sobretudo à conversa, sem pressas, sem julgamentos. Sem mundo além de nós os dois e aquelas palavras.

Dou por mim a pensar no meio do meu labirinto interior que não há nada mais bonito no mundo do que uma conversa. Quando conversamos com verdade despimos os véus. Abrimos. Ouvimos. Damos e recebemos.

Às vezes pergunto-me se a vida cabe toda numa conversa. Ou se a conversa cabe toda na vida. Conto pelos dedos a quantidade de pessoas que gosta de conversar assim. De peito aberto. Com o olhar. Com o silêncio. De corpo inteiro.

E em fins de semana lassos ali ficamos nós. Abandonados numa mesa de um restaurante que já faz parte da jóia da nossa rotina, seja na costa norte ou sul da ilha, e podemos ir tão longe, num espaço tão exíguo, e esquecer o peso e dor de existir. Consigo até distrair-me da finitude da vida.

Depois de viajar sobre tudo isto, numa quarta-feira aleatória, volto à terra e lembro-me que tenho uma crónica por escrever, primeira por sinal. Dizem que não se esquecem.

Cláudia Caires Sousa
Colunista
Para ver mais textos, por favor clique no nome do autor.
Apaixonada pela leitura desde que se lembra de existir. É licenciada em Ciências da Comunicação e optou pelo jornalismo por ser uma janela para o mundo, a única capaz de saciar a sua curiosidade. Ao longo da vida tem descoberto outras paixões, mas nunca sai de casa sem estar acompanhada por um livro. Acredita que a linguagem é o instrumento por excelência que nos define.
Textos deste autor:

RECOMENDADOS PARA SI

EU APOIO O Luso.eu

Últimos Tweets

Federação Colombiana de Futebol anuncia saída do treinador português Carlos Queiroz https://t.co/NGeQ1RfcAq
Covid-19: GNR detém 30 pessoas por eliminações ilegais de resíduos sanitários https://t.co/e79idWEeSX
TAP: Companhia prevê redução da operação entre 60% e 70% durante o inverno https://t.co/nM613dEsyX
Follow Jornal das Comunidades on Twitter