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segunda-feira, 26 julho 2021

A amizade tem sabor a hospitalidade



O último ano que estive em Lisboa a viver foi muito importante na minha vida. Não só por voltar a estar a viver perto (geograficamente) das minhas amigas de sempre, que habitam na capital desde os tempos em que fomos juntas para a universidade, mas também por ter encontrado uma mão cheia de novas amizades.

O lugar onde fui trabalhar, o Ground Burger, acabou por ser o sítio onde até hoje mais gostei de exercer funções, ainda que não estivesse inteiramente relacionado com a minha área. No fundo era um minúsculo restaurante pop up, no Mercado da Ribeira. Não obstante, foi o sítio onde pela primeira vez tive de gerir pessoas e lidar com situações de responsabilidade. Aprendi tanto sobre liderar, mas, mais ainda, sobre mim. Na verdade, acho que tenho muita sorte. A qualquer lugar que vá tenho uma espécie de jardineiros com um regador à mão pronta para me borrifar com a sua gentileza e amabilidade. E num instante crio logo raízes profundas e cresço com estas pessoas, que normalmente plantam um lugar no meu coração, onde o sangue faz questão de irrigar com a seiva do amor.

Apercebi-me disso especialmente em Bruxelas. Onde não tinha ninguém a não ser um grande amigo. E até nisso tive sorte. De todos os lugares onde poderia ir parar, aterrei na cidade onde estava uma amizade plantada há 15 anos. Mas ainda assim, tendo esse apoio, esse colo sempre que precisei, de repente, num par de dias a viver nessa estranha cidade, onde se falam oficialmente três línguas, e que nenhuma delas dominava, socorrendo-me do inglês, ganhei um jardim de amizades por cultivar.

Fossem relações laborais ou pessoais que foram surgindo, a verdade é que todas floresceram e ao fim de um ano e meio, quando decidi que era hora de fazer as malas e voar, já tinha um parque florestal de amizades a perder de vista. Recordo com carinho o meu amigo açoriano, o Nuno. Foi amizade à primeira vista. Desde que nos conhecemos não nos largamos mais. Até hoje é assim. Falamos sobre tudo e nada. Lembro com carinho aqueles fins de semana já distantes em que ele me dizia:
- Vamos a Amesterdão?!

E lá íamos nós, de carro, com uma banda sonora a condizer, explorar o país vizinho.

Por vezes nem íamos tão longe. Bastava ir a um Shopping, almoçar, ou até tomar um brunch num domingo cinzento, frio, feio, típico daqueles invernos longos e rigorosos que se pintavam tão bonitos com a nossa amizade e cumplicidade. Ou aqueles convites a meio da semana para ir ao seu pequeno, mas acolhedor estúdio comer sushi, inesperadamente, depois de um dia de trabalho. A Carolina, foi outra açoriana que me acolheu no colo. Desconfio da minha habilidade inata com ilhéus. Chegou a viver na minha casa um par de semanas e eu na dela quando momentos de turbulência nos tolheram. Partilhamos o lar, a comida, e a vida.

Tive ainda amizades profundas com quem não falava a minha língua, mas entendia a sinfonia da minha alma, como a minha primeira parceira de casa, a Alexa. Uma Valenciana que amava Portugal e com quem ao final do dia discutia o mundo. Ainda tenho na minha memória o som do seu ukulele e as nossas deambulações sobre a existência.

Ou a Fanny, a minha primeira amizade em Bruxelas e com quem ia explorar os mercados e passear. Foi com ela com quem bebi as minhas primeiras cervejas belgas e com quem fiz um ‘pacto’ de amizade até ao final dos nossos dias. Parece infantil. Mas soa-me romântico. Daquelas coisas que num mundo tão volátil já não se fazem. O Roger e o Roberto também fazem parte desta melodia no meu âmago. E é difícil falar de tantas outras pessoas que se cruzaram pela minha vida naquele país. Ficará para outra crónica.

Voltando a Lisboa, tenho memórias doces dos colegas de casa que se tornaram amigos e sobretudo do Mercado da Ribeira, onde trabalhei. Até os dias pardacentos me parecem lindos à distância.

Entendo agora, sobretudo nestes tempos pandémicos em que há muitas horas para pensar que precisamos, de facto, de nos afastar para perceber o quanto valeu a pena todas as experiências. Eu sempre tive essa certeza, mas agora torna-se tão cristalino.

Sobre a amizade recordo as sábias palavras de José Tolentino Mendonça: “A amizade não se alimenta de encontros episódios ou de feitos extraordinários. A amizade é um contínuo. Tem sabor a vida quotidiana, a espaços doméstico, a pão repartido, a horas vulgares, a intimidade, a conversas lentas, a tempo gasto com detalhes, risos e a lágrimas, à exposição confiada, a peripécias à volta de uma viagem ou de um dia de pesca. A amizade tem sabor a hospitalidade, a corridas atarefadas e a tempo investido na escuta”.

Luso.eu - Jornal das comunidades
Cláudia Caires Sousa
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