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sábado, 16 outubro 2021

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Bruxelas, Paris, Lisboa



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Os intelectuais europeus (e não só) sempre circularam muito entre países. Devido a problemas políticos, de ordem familiar, cultural, económicos, e tantos outros. Por vezes, quando deslocados ainda pequenos do seu país e vindo a permaner no novo por muitos anos, quase nos esquecemos da sua origem. Ainda mais se a sua actividade criativa os ligar especialmente àquele que passou a ser o seu mundo. É o caso de Agnès Varda, a belga mais francesa que conheço. Digo que conheço, porque, na verdade, não conheço todos os belgas em França, nem nada que se aproxime disso…. E contudo, existe nela algo como um perfume, que permanece profundamente ligado ao seu país de nascimento. Mas também ao mundo. Já explico.

Arlette Varda nasceu num final de Maio em Bruxelas, em 1928, e lançou-se no voo a partir de Paris, em 2019. Admito que tenha sobrevoado Bruxelas, antes de ganhar altitude.

O fascínio dos seus filmes consiste, para além de focar temas normalmente arredados do cinema, em fazê-lo com uma estética documental sem que, por isso, deixe de contar uma história e ainda mais fortemente envolver-nos nela mais ainda do que se se tratasse apenas de ficção. Deixou o estúdio para filmar lugares, deixou a ficção para mostrar realidades, deixou os lugares-comuns para mostrar o lado normalmente não visto, como o mundo feminino, os bastidores do trabalho, o estado de sítio em que temos transformado o planeta e algumas tentativas de transformação, prescindiu de actores profissionais para filmar as pessoas em seus locais de vida.

A duplicidade já lhe estava na natureza, pois nasceu numa comuna bilingue, de pai de origem grega e de mãe francesa. Casou com um francês, o cineasta Jacques Denis.

Não há um único filme dela que não me tenha tocado profundamente, mas recordo, em especial, o que vi mais recentemente, com cenas de Paris, uma Paris que já desapareceu, mas que ainda é possível encontrar em alguns recantos de Lisboa, ou era-o, antes do grande afluxo turístico pré-pandemia, e que encontrei, também, há nos anos, nos subúrbios de Madrid ou em plena cidade de Bucareste, tal como nas minhas recordações das montras de infância, onde era possível encontrar umas meias de vidro ladeando um perfume com décadas de existência, sabonetes de alcatrão, bicarbonato de sódio, ligas de senhora, canetas, peúgas de criança, fardas de empregada, e uma infinita lista de objectos imprescindíveis num determinado tempo passado. Deste filme, guardo religiosamente as imagens de uma drogaria-perfumaria, uma mercearia e um talho. A drogaria era propriedade de um casal que me inspirou uma ternura transbordante na sua indelével temporalidade, localidade, eternidade. Ela, com Alzheimer, era como um manequim indispensável à idiossincrasia do lugar, onde frascos de águas-de-colónia e perfume, na maioria fabricados pelo marido, conseguiam fazer desprender do vidro um aroma que chegava até mim, pelo mistério da película. Encontramo-los mais tarde no talho, comprando dois bifes para o jantar, num tempo em que não havia frigoríficos para conservar, e os frescos eram adquiridos em cada dia. A mercearia, de uma família de magrebinos, continha tudo, a granel, como na minha infância, e hoje nas lojas chiques, e os clientes eram atendidos com a paciência e o tempo que se devota a um filho. Isto é Agnès Varda, belga, francesa, criando a estética depois apelidada “nouvelle vague” antes do seu surgimento enquanto movimento, e sem nunca lhe vir a pertencer. Ela é ela, cineasta do seu mundo, cineasta do mundo. Porque quando um artista consegue captar o que de mais essencial existe na alma de um povo, está ligado, sem que tenha de fazer algo explicitamente nesse sentido, ao que mais profundamente caracteriza a humanidade. Não precisa de ser folclórico, não precisa de ser global, basta-lhe olhar humanamente e sem ideias prévias e passa a ser tudo: temporal e intemporal, local e não local, clássico e vanguardista. Varda, uma cineasta europeia, uma cineasta do mundo, a ver, a rever.

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Risoleta C. Pinto Pedro
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