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No Dia do Livro Português, escolho um dos meus livros preferidos, uma obra a que regresso sempre e que, a cada leitura, me traz novos ensinamentos. Falo-vos de “Memorial do Convento” de José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998.
A expectativa que decorre da observação da capa é, desde logo, que estamos em presença de um romance histórico, cuja ação se desenrola num espaço e num tempo precisos.

Com efeito, a palavra “memorial” reenvia-nos para um recuo no tempo, para um resgate de lembranças, factos e momentos que se pretendem preservar. E ficamos a saber, logo no parágrafo inicial, que o convento de que se fala é o Convento de Mafra. Uma obra barroca, com desenho do arquiteto alemão João Ludovice, custeada com as remessas de ouro do Brasil. No seu tempo, um dos maiores da Europa.

O texto da contracapa como que inicia o leitor no romance, pela fórmula mágica, intemporal e universal “Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra”. O rei é D. João V, o Magnânimo, Rei de Portugal e dos Algarves entre 1707 e 1750, filho de D. Pedro II e da rainha Maria Sofia de Neuburg. Casou em 1708 com D. Maria Ana de Áustria, irmã do imperador austríaco Carlos III, que, dois anos depois, ainda não tinha cumprido a sua mui nobre e honrosa função de dar herdeiros à coroa portuguesa.

“Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente […] Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar…”
Mas Deus é grande e D. João V terá filhos se quiser, por isso promete mandar construir um convento na vila de Mafra se Deus lhe der um filho no prazo de um ano. E com esta promessa nada é posto à prova, nem a vontade de Deus, nem a “potência do rei”, nem a “fertilidade dificultosa” da rainha já que D. João V e D. Maria Ana tiveram seis filhos, o primeiro dos quais uma menina, a Infanta Maria Bárbara.

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A estas personagens históricas, juntam-se depois muitas outras, algumas reais, como Domenico Scarletti, o italiano que ensina música à Infanta Maria Bárbara; o Padre Bartolomeu de Gusmão, construtor de uma passarola voadora, numa época em que voar, não sendo coisa própria da condição humana, só podia ser coisa do diabo; os muitos homens, vindos de todo o reino que trabalharam para cumprir a promessa real; outras, personagens de ficção, como Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, o dia e a noite, o sol e a lua, a vivência do quotidiano de partilha de bens e males.
“Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.”

Era uma vez, a história que se quer contar, o propósito do narrador que “só para isso” escreve, porque é essa a sua “obrigação”, fazer um memorial para tornar imortais as vidas de todos os homens que foram para Mafra, “Da sua própria vontade alguns, aliciados pela promessa de bom salário, por gosto de aventura outros, por desprendimento de afetos também, à força quase todos.”

O leitor assiste, neste “era uma vez” que recupera a memória de todos os que não ficaram na história, à chegada destes homens, “cortejo de maltrapilhos” e de vidas miseráveis, as do século XVIII e as do século XX, as de ontem e as de hoje, as dali e daqui.

“Juntam-se os homens que entraram hoje, dormem onde calhar, amanhã serão escolhidos. Como os tijolos. Os que não prestarem, se foi de tijolos a carga, ficam por aí, acabarão por servir a obras de menos calado, não faltará quem os aproveite, mas, se forem homens, mandam-nos embora, em hora boa ou hora má, Não serves, volta para a tua terra, e eles vão, por caminhos que não conhecem, perdem-se, fazem-se vadios, morrem na estrada, às vezes roubam, às vezes matam, às vezes chegam.”

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