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Hoje, um dia primaveril cheio de luz e energia, neste mês de Fevereiro de 2026, após um almoço esplêndido que está a tornar-se uma tradição, na companhia de um amigo muito especial, na freguesia da minha residência em Benfica, predispus-me a passear na freguesia das Avenidas Novas, onde residi durante largos anos (antiga freguesia de N. Sra. de Fátima). 

Tornou-se um hábito, este encontro de dois amigos para almoçar, quase sempre a um sábado, sem data definida, mas que se transforma numa espécie de tertúlia sobre aquilo que nos uniu, a literatura, sobre temas variados e sobre os amigos ou conhecidos comuns, ou para combinar uma ida a alguns eventos literários de interesse comum. 

Durante algumas horas e a satisfação da degustação de um almoço bem confecionado, quase tudo é possível dizer, onde a confiança é um fator e onde os risos são uma constante, em saudável cumplicidade.

Quantas histórias mais se poderiam deslindar, contar, descobrir, interpretar, num mundo onde o ser humano precisa de conviver e partilhar experiências e vivências únicas, e cujas horas do dia não chegam para as desfiar nesta harmonia do verbo entre dois poetas e escritores? São, acima de tudo, momentos singulares, culturalmente enriquecedores e particularmente divertidos. Momentos felizes.

Atendendo ao dia soalheiro e à vontade de passear, a intenção de me deslocar à outra parte da cidade, seria visitar a livraria Tantos Livros… Livreiros (a velha livraria Europa-América, onde comprei tantos livros, onde estudei varias vezes na sua pequena biblioteca, onde assisti a vários eventos, onde fiz uma apresentação do meu primeiro romance, onde conheci tantos colegas da cultura lisboeta), e perder-me entre as suas estantes de livros e alguma eventual exposição de pintura, situada na Av. Marquês de Tomar, mas acabei por andar um pouco e observar o quanto aquelas avenidas à volta da Praça Duque de Saldanha e ao longo da extensa Avenida da República mudaram nestes últimos anos. 

Com lojas multifacetadas, num novo comércio principalmente virado para o turismo e para os estrangeiros residentes para além dos portugueses que ainda residem nestas paragens, prédios antigos com novas fachadas ou que deram lugar a novos prédios, um trânsito intenso e constante durante a semana, e também aos fins de semana, algo que contrasta com anos anteriores, uma nova imagem, afinal, tão diferente da que existiu nos anos 80, 90 e início do século XXI, quando em 2005 me afastei por motivos profissionais.

Confesso que sinto saudades desses anos e de tudo o que ali existiu e que fez parte da minha juventude, da minha formação e do meu crescimento pessoal e profissional. 

Confesso que não aprecio este novo mundo nas Avenidas Novas, sinto-o mais impessoal, mais estranho, mais distante, mais frio. Sinto-me desligada e em simultâneo uma profunda melancolia por tudo o que já ali se perdeu e por todos os que desapareceram e fizeram parte da minha vida.

Foi ali, na Praça Duque de Saldanha, com o olhar admirado pela longa Avenida da República que me apaixonei por Lisboa, com 6 anos, numa viagem de férias dos meus pais, altura em que vivíamos em Angola.

Sim, muito desapareceu dando lugar a novas estruturas, novos rostos, uma renovada existência daquele local da cidade.

No entato, nesta caminhada, reconheço rostos que ainda circulam naquelas avenidas, residentes ou empregados, alguns ex-colegas de profissão. Rostos envelhecidos pelo passar dos anos, que conjuntamente com muitas fachadas de edifícios resistentes ao tempo são aprazíveis de rever. Fazem parte de velhas memórias, memórias inesquecíveis de uma época em que o mundo vivia intensamente as transformações que ajudámos a construir.

E, termino o meu percurso com uma paragem na antiquíssima Pastelaria Versailles, um ícone vivo da cidade de Lisboa. Mantém os seus traços arquitetónicos originais, tanto na fachada externa como no interior, desde 1922.

A Patisserie Versailles foi fundada por Salvador José Antunes, português que adorava a pastelaria francesa e a arte, sediada na Av. da República num edifício ao estilo de Luís XIV, decorado com pinturas de Benvindo Ceia, neorromânticocom vitrais, candelabros e tectos embelezados com estuque retratando os lagos de Versailles e o trabalho em talha de Fausto Fernandes.

Com um ambiente selecionado, era frequentada por diversas personalidades da sociedade lisboeta, e que ainda a visitam, ora para um café, um almoço ou um lanche, não dispensando um dos seus bolos tradicionais. Até às alterações que as chamadas Avenidas Novas sofreram a partir dos anos 80, quando perderam muito da sua ocupação residencial. A vida da pastelaria ressentiu-se, contudo, voltou a erguer-se com a expansão do turismo e a abertura de um novo espaço na freguesia de Belém, zona muito procurada turisticamente.

Assim, neste local cheio de história, que se funde com a história de Lisboa, pude constatar tal beleza mais uma vez, e após alguns anos, nesta visita casual. Uma sala sempre cheia de pessoas das mais variadas caraterísticas, onde se ouvem línguas de diferentes origens para além da língua portuguesa, onde sobressaem o seu charme e requinte no serviço prestado, e a mais variada pastelaria que lhe dá o reconhecimento.

Está na hora do regresso a casa.

Durante o percurso de autocarro, observando a paisagem, revejo as imagens deste dia, um dia cheio de emoções diferentes mas que enriqueceram a minha existência.

☆ Informação extraída do site da Pastelaria Versailles e adaptada: https://grupoversailles.pt/