De Paris a Madrid, passando por Bruxelas, a rua voltou a ser o parlamento dos que já não se sentem representados. Em França, os liceus estão bloqueados desde o fim de Setembro. Em Madrid, centenas de milhares, segundo os organizadores, desfilaram pelo direito à habitação e a Puerta del Sol transformou-se em acampamento. Em Bruxelas, nova manifestação contra os cortes orçamentais antecede mais uma greve.
As causas diferem na superfície, mas partilham a mesma raiz. Durante décadas, o contrato europeu foi simples, quem estudasse e trabalhasse viveria melhor do que os pais. Esse contrato rompeu-se. A estagnação económica avariou o elevador social, e uma geração qualificada descobriu que o salário não chega para uma casa, que o mérito já não garante ascensão e que o futuro se tornou uma promessa adiada. A Europa já não cresce o suficiente para sustentar o Estado social que construiu, muito menos para alimentar as ambições dos mais novos. Os governos, presos entre dívidas e eleitorados envelhecidos, gerem o declínio em vez de o enfrentar.
As consequências políticas já se fizeram sentir. Pedro Sánchez, derrotado no Congresso nos decretos sobre a habitação, antecipou as eleições para 29 de Novembro, apostando que a indignação se converta em votos. Em Paris, o Governo de Sébastien Lecornu prometeu um plano até ao fim de Outubro, enquanto Mélenchon tenta capitalizar o descontentamento. Em ambos os casos, o centro político reage em vez de liderar.
É aqui que reside o maior perigo. Quando os partidos tradicionais deixam de oferecer novos horizontes, o protesto procura quem prometa respostas simples. À esquerda, a radicalização ganha fôlego e à direita, os extremos apresentam-se como garantes da ordem e apontam culpados fáceis. O resultado provável é a fragmentação parlamentar, governos cada vez mais frágeis e uma Europa ainda menos capaz de tomar as decisões difíceis de que precisa.
A Europa arde por razões concretas. Se os seus governos continuarem a tratar o fogo como um problema de polícia, e não de crescimento económico e de futuro, a factura será paga nas urnas.






















