Foi apresentado pelo coletivo POEMAR, no passado dia 27, na residência do Embaixador de Portugal em Bruxelas, Dr. António da Costa Moura, o segundo livro sobre os refugiados políticos que a Bélgica acolheu nos anos sessenta e princípio de setenta do século passado, e que tem por título “O que muitos andaram para aqui chegarmos”,
POEMAR é um grupo de amantes de poesia, de conversas de cravos, de contadores de exílios, de conquistas de liberdade, de descobridores de heróis que “emalaram a trouxa e zarparam” para um caminho povoado de medo, de coragem e de mágoa.
Maria Manuel Gandra, Joaquim Silva Rodrigues, Maria de Fátima Azóia, Maria José Rodrigues e Mário Campolargo lançaram-se neste louvável trabalho de memória com a publicação do agora segundo volume.
“O que muitos andaram para aqui chegarmos” colige testemunhos de viagens perigosas povoadas de perigos, relata a audácia de jovens intrépidos, lúcidos, amantes de um Portugal que não os quis e os deitou ao mar.
A recusa da guerra nas colónias foi para estes um imperativo de consciência, “de angústia e de revolta, de perigo e de resistência, de clandestinidade e de risco”.
Este é um livro que faltava ainda fazer. A nossa diáspora é também composta por esta porção de homens e mulheres que a mais de cinquenta anos dos seus corajosos gestos trouxeram à memória relatos de emoções e de sensibilidades, muitos já arrumados na prateleira, mas que fazem parte da nossa história e que é necessário transmitir às gerações vindouras para que conste e que não se apague.
No seu tempo, foram autênticos visionários que, com as suas partidas, puseram em causa a narrativa do poder colonial que se traduzia na continuidade de uma guerra contra povos que aspiravam a ser livres e independentes arrastando uma juventude que desperdiçou tempo e saúde numa causa perdida.
O livro contém relatos comoventes, enternecedores, corajosos. A Bélgica deu-lhes a mão, foi solidária. Também percebeu que era uma juventude que seria uma riqueza para este país. Após terem recebido o estatuto de refugiado político, muitos puderam continuar os estudos que completaram nas universidades, recebendo bolsas de estudo, subsídios. Aqui se tornaram cidadãos ativos e exerceram as suas profissões de médicos, advogados, economistas, empresários, artistas ou simples trabalhadores.
As apresentadoras, Maria Manuel Gandra, Maria de Fátima Azóia, Maria José Rodrigues “poemaram” autores da resistência e referiram registos dos que muito andaram para aqui chegarmos.
É também de assinalar o generoso gesto do Embaixador de Portugal, Dr. António da Costa Moura, por ter colocado à disposição a sua própria residência para acolher esta louvável iniciativa, onde nos relatou igualmente memórias do seu 25 de abril de 1974.
Está de parabéns a diplomacia que se tornou mais próxima e mais visível da comunidade portuguesa!

