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Faixas e cartazes de protesto em casas rurais de Barroso, com mensagens contra a exploração mineira de lítio, ilustrando a oposição da população local ao projeto referido no artigo.


BOTICAS – A região do Barroso, em Trás-os-Montes, prepara-se para aquela que será a maior transformação da sua história milenar. Com a recente "luz verde" de Bruxelas e um apoio financeiro da AICEP que pode chegar aos 110 milhões de euros, o projeto da Savannah Resources em Boticas avança a passos largos.

No entanto, o que para a economia europeia é um "projeto estratégico", para as populações locais é o princípio do fim de um modo de vida único no mundo.

A Paisagem: Do Verde das Serras às Crateras a Céu Aberto

A classificação do Barroso como Património Agrícola Mundial pela FAO está agora sob pressão direta. A exploração de lítio não será uma intervenção discreta: as prospeções indicam um potencial que ultrapassa as 100 milhões de toneladas de minério.
Na prática, isto significa a abertura de enormes crateras a céu aberto. A paisagem de socalcos e montes virgens será substituída por uma zona industrial de grande escala, com movimentação constante de maquinaria pesada e a criação de escombreiras que alterarão de forma irreversível a orografia da região.

Agricultura e Pastorícia: O Fim da Transumância?

O impacto mais profundo sente-se no solo e na água. O Barroso vive da agricultura de subsistência e da pastorícia, baseada num sistema comunitário de gestão de baldios.
 * Corte de Linhas de Água: A mineração exige consumos hídricos massivos, o que levanta sérios receios sobre a sobrevivência dos "lameiros" (pastagens naturais regadas).
 * O Gado Barrosão: Sem pastos e com o ruído constante das detonações, os criadores temem que o gado bovino — símbolo da região — perca as condições de pastoreio livre que garantem a qualidade da carne DOP.
 * Expropriações: Com o processo de expropriação a entrar na fase final, muitos agricultores veem-se forçados a abandonar terras que pertencem às suas famílias há gerações.

Um Conflito de Valores: Ecologia vs. Estratégia

A associação "Unidos em Defesa de Covas do Barroso" acusa o Estado português de sacrificar o bem-estar das populações em nome da transição energética europeia. Enquanto o Governo e a União Europeia defendem que o lítio de Boticas é essencial para fabricar baterias para 47 milhões de carros elétricos, os locais lembram que "não há ecologia sem pessoas".
O recente indeferimento judicial da ação para anular o contrato de concessão foi um balde de água fria para os movimentos cívicos, mas a resistência continua viva, com acampamentos e protestos que prometem marcar o verão de 2026.

O Barroso tornou-se o palco principal de um paradoxo moderno: para descarbonizar as cidades e cumprir as metas climáticas de Paris, a Europa parece disposta a sacrificar um dos seus últimos redutos de sustentabilidade rural tradicional. A "luz verde" de Bruxelas pode iluminar o futuro dos carros elétricos, mas projeta uma sombra de incerteza sobre o destino das gentes de Boticas.

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