O mundo assiste, entre a perplexidade e o déjà-vu, ao desenrolar de mais um capítulo sangrento na geopolítica contemporânea. Hoje, o conflito no Irão entra no seu terceiro dia, consolidando-se como o "oitavo teatro militar" da administração Donald Trump desde o seu regresso à Casa Branca em 2025.
O contraste é gritante: o homem que se vendeu ao eleitorado como o único capaz de travar a "carnificina americana" e encerrar guerras intermináveis, preside agora a uma ofensiva que, em apenas 72 horas, já atingiu mais de 1.700 alvos em solo iraniano, em coordenação com Israel.
O argumento de Trump, apresentado ao Congresso com a sua habitual retórica de força, é que estes ataques visam "neutralizar atividades malignas". No entanto, a lógica da "paz através da força" parece ter-se transformado numa "paz através da intervenção seletiva". Desde que assumiu o cargo, Trump reclama ter resolvido oito guerras — citando tensões entre Índia e Paquistão e o conflito no Nagorno-Karabakh — mas a matemática da pacificação é traiçoeira quando, ao mesmo tempo, se abrem novas frentes ou se inflamam as antigas.
O Mapa da Discrepância
O "oitavo teatro" não nasceu no vácuo. Segue-se a uma reestruturação profunda do Pentágono, onde a prioridade deixou de ser a diplomacia multilateral para passar a ser a projeção de poder unilateral.
Relembremos o percurso deste último ano:
* Somália: Ataques imediatos contra o Estado Islâmico e al-Shabab.
* Fronteira Sul: Uma missão militarizada com 3.000 tropas no ativo, tratando a imigração como um cenário de guerra doméstica.
* Médio Oriente: A escalada total contra Teerão, com a Marinha dos EUA a preparar-se para escoltar petroleiros no Estreito de Ormuz.
O perigo reside na admissão do próprio Presidente de que o objetivo de "mudança de regime" no Irão pode enfrentar dificuldades. Se a vitória militar não garante estabilidade política, estamos perante uma repetição dos erros do passado, mas com uma roupagem mais agressiva e tecnologicamente letal.
A Ilusão da Calmaria
Trump joga com as palavras como quem joga com exércitos. Ao destacar a prontidão do Eighth Army na Coreia do Sul ou ao vangloriar-se de evitar uma "nona guerra" (referindo-se ao próprio Irão que agora bombardeia), o Presidente tenta vender uma narrativa de controlo. Mas o que vemos é uma "linha lisa e domesticada" apenas na superfície das suas redes sociais. Por baixo, como diria a poesia de França Saraiva, há "dedos crispados a apertar a garganta".
A estratégia de "resolver" conflitos apenas para abrir novos teatros de operações levanta a questão: que paz é esta que exige 1.700 bombardeamentos para ser mantida? Ao tentar eliminar o Irão como ameaça global, os EUA arriscam-se a incendiar o que resta da estabilidade no mercado energético e na segurança internacional.
A "paz" de Trump parece ser, afinal, uma encenação coreografada. É uma paz que não se importa com o "travo metálico do vazio" diplomático, desde que a manchete ruidosa proclame vitória. O problema é que, na vida real, os odores da guerra atravessam a objetiva e o espelho da história não aceita filtros. O oitavo teatro pode muito bem ser o ato em que o cenário finalmente desaba.

