BERLIM – A estabilidade das reservas federais alemãs tornou-se o novo centro do debate geopolítico na Europa.
Um grupo crescente de economistas e especialistas financeiros está a instar o governo de Friedrich Merz a retirar as suas vastas reservas de ouro dos cofres dos Estados Unidos, citando a crescente imprevisibilidade da administração de Donald Trump e a fragilidade das relações transatlânticas.
A Alemanha detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, avaliada em cerca de 450 mil milhões de euros. Atualmente, 37% desse montante — aproximadamente 1.236 toneladas — repousa sob as ruas de Manhattan, nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque.
O Fator Trump e a "Soberania Estratégica"
Para especialistas como Emanuel Mönch, antigo chefe de investigação do Bundesbank, a manutenção de tamanha riqueza em solo americano representa hoje um risco desnecessário. "No interesse de uma maior independência estratégica, o Bundesbank seria bem aconselhado a considerar o repatriamento", afirmou Mönch ao jornal Handelsblatt.
O receio não é apenas logístico, mas político. Michael Jäger, da Associação Europeia de Contribuintes, alerta que o ouro alemão pode transformar-se numa "moeda de troca" ou num alvo de sanções e tarifas, especialmente após as recentes ameaças de Trump sobre impostos alfandegários e a sua retórica isolacionista.
Governo Tenta Tranquilizar Mercados
Apesar da pressão, o governo de coligação e o próprio Bundesbank mantêm uma postura de cautela. Joachim Nagel, presidente do banco central alemão, assegurou recentemente que "não há causa para preocupação" e que as auditorias são regulares.
Contudo, o debate que antes era limitado à ala mais conservadora e nacionalista (como o partido AfD) infiltrou-se agora no mainstream político.
Figuras do partido Os Verdes já defendem que o ouro é um "âncora de confiança" que deve estar sob controlo total e direto do Estado alemão para evitar ser usado como peão em disputas globais.
Com o mundo a entrar numa era de "política de grandes potências", a localização física do ouro alemão deixou de ser uma questão meramente contabilística para se tornar num teste de fogo à autonomia da maior economia da Europa.




